Por mais experiência que se tem na vida, algumas situações sempre são de se baquear.
Geraldo abriu os olhos quando ainda estava escuro, remoendo a frustração de ter que se sujeitar àquela lida. Não ousava olhar para o relógio, pois sabia que ainda era cedo demais.
Perseguia em sua cabeça as memórias de uma trajetória de sucesso, dos grandes feitos e dos grandes aprendizados com homens grandes. Tentava pensar em coisas grandes que realizou e que ajudou a realizar.
Mas lembrava dos tempos de criança no interior de São Paulo, quando sentiu muita vergonha por um amiguinho da escola que não tinha dinheiro pra levar um prato de docinhos na festa de São João. Essa cena sempre lhe foi recorrente, pois toda vez que seu coração apertava por alguma razão, ficava atormentado com a sensação de não ter sentido pena do garotinho pobre, mas sim, vergonha.
E vergonha é algo que Geraldo não sentia há muito tempo. Aprendeu a comandar essa função como parte de seu trabalho. Não estava sentindo vergonha quando se levantou e ficou ainda ali, parado por alguns minutos tentando acertar mentalmente o caminho do chuveiro. Sua cabeça estava vazia. Olhava para o nada, pois via nada. Sua visão estava desfocada com a ausência de devaneios.
No chuveiro, Geraldo ainda conseguiu lavar alguns pensamentos ruins. Sabia lidar com essas situações. Já fez muita coisa que testava seu caráter e suas filosofias. Já enganou. Muito. Já foi enganado. Mais do que imagina. Sujeitou-se a todo tipo de procedimentos duvidosos para manter sua carreira sempre em ascensão. Conseguiu. Quase sempre. Quando não conseguiu, dava um jeito de se projetar. Sabe que em seu ramo, tudo se faz em longo prazo. Sabia demais. Ainda sabe.
Saiu do banho, (como sempre) fez a barba, ficou admirando a imagem do espelho, a cara limpa que cobria uma mente infestada de pensamentos que divergiam entre si. Escondia atrás daqueles olhos serenos uma cólera contida pelos anos de sabedoria, que concederam lhe o poder único de dissimulação (que ele gentilmente chama de “autocontrole”).
Vestiu uma calça preta, seus sapatos preferidos (também pretos) e uma camisa azul (clássica, que demonstra liderança). Ao sentar-se na mesa para o café, relembrou incessantemente do tal garotinho. Lembrou da cabeça baixa, da vergonha que sentia pelo garoto sentado num canto. Lembrou que o garoto não se dirigiu à mesa para comer uma vez sequer. A vergonha alheia queimava sua face e escondia o ar que parecia não entrar em seus pulmões. Se lembrou de tudo isso porque viu que sua esposa olhava para ele com a mesma cara com que ele olhava para o garoto. Uma cara de vergonha imensa. Uma cara de vergonha imensurável.
Geraldo não disse nada. Apenas demonstrou com o olhar que sabia o que estava fazendo. Sua esposa também nada disse. A vergonha era grande, mas a necessidade era ainda maior.
Geraldo saiu de casa e fez o que tinha que fazer. Fez bem. Sorriu. Sorriu como sempre sorria. Sorriu o tempo todo. Sabia que aqueles sorrisos prolongados acabariam dando uma dor nas bochechas. Conhecia aquela dor. Mas quando o sorriso é contra a vontade, é pior. Quando o sorriso é contra si, a dor é bem maior.
“O ex-governador Geraldo Alckmin aderiu nesta terça-feira, 14, à campanha do prefeito e candidato do DEM à Prefeitura de S.Paulo, Gilberto Kassab (DEM). Adversários no primeiro turno, os dois fizeram sua primeira aparição pública juntos, na manhã desta terça-feira, no centro da Capital. O encontro dos dois começou com um forte abraço, aplaudido por correligionários do DEM e do PSDB, em um café em frente ao Mosteiro de São Bento, no Centro da Capital. Mal Alckmin chegou ao local, cabos eleitorais de Kassab já colaram nele um adesivo do candidato. Mais tarde, foi a vez do próprio Kassab colar outro adesivo no peito do ex-governador”. (Trecho tirado de uma matéria do site O ESTADO DE S. PAULO. Acesso em 14/10/2008)
