Li hoje, depois de intermináveis especulações que seguiram por anos, que a prefeitura de São Paulo abriu concorrência para efetivar a demolição do Edifício São Vito, mais conhecido por aqui como “Treme-Treme”.
O prédio mais feio da cidade está abandonado há anos e chegou a ter as entradas emparedadas para evitar invasões de mendigos, sem-teto, viciados e todo o tipo de persona non grata.
Sempre tive um orgulho besta daquela construção que, desde que me conheço por gente, encontra-se aos pedaços, adornada por imundícies e pixações diversas. Toda vez que passo em frente, sinto que algo me atrai.
Aquele monumento cravejado de tijolos expostos e janelas minúsculas “protegidas” por cobertores sujos e papelões úmidos e mofados é a lembrança da redundante degradação do centro velho da cidade. O Treme-Treme é uma cicatriz grande, saltada e aparente, evidenciando a terrível fragilidade de um coração urbano (e esse já parece estar a ponto de parar).
O São Vito é colado ao Edifício Mercúrio (que ainda funciona com mais de 90% dos imóveis ocupados) e tem ao redor todo tipo de subproduto perverso.
Dependentes desfilam nas penumbras da Cracolândia, fazendo brilhar a chama de seus cachimbos de amanhecer em amanhecer. Trombadinhas, gatunos, sorrateiros e especialistas em furtos e arrombamentos perambulam nas imediações do Parque D. Pedro II, camuflados nos vários viadutos, prontos pra atacar outro carro que pára distraidamente no semáforo. Na região da Luz, a máfia nigeriana comanda com olhares soturnos diversas transações duvidosas. Tudo isso complementado por todo tipo de pedinte, prostituição promíscua, violência gratuita e demais trivialidades de qualidade ilícita.
O Treme-Treme é o núcleo de um desarrimo progressivo. É um cartão-postal de costas, que escancara o lado B da megalópole São Paulus. Essa tal demolição, se acontecer de fato, pode ser o símbolo de um recomeço. Quando tudo aquilo vir abaixo, toda aquela área tomada de um estado inócuo pode tomar nova forma. Ou, como muitas outras ações, essa demolição pode ser engolida por uma série de equívocos e incúrias pra se transformar em mais um exemplo de omissão.
Espero modificar esse orgulho besta que sinto por uma nostalgia aliviada. Nostalgia de um tempo que orgulho besta não era assim tão besta…

