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De “Padrinho” a carcamano num piscar de olhos.

Fevereiro 11, 2009

 

Confesso publicamente que sou cria absurdamente mimada de Coppola-Scorcese-Leone-De Palma. Com seus poderosos chefões, seus bons companheiros, suas vezes no oeste e na América, seus pagamentos finais, gangues de NY ou qualquer outro tipo de aglomerados de estereótipos ítalos ou latinos, acabaram por me fazer apaixonado por tudo que possa ter respeito com o submundo do mundo, visto pelos olhos, sucessos e dores das personagens que eternizaram a maestria de figurinhas fáceis como Marlon Brando, Al Pacino e Robert De Niro. Máfia, Crime organizado, desorganizado, todo o tipo de tráfico, contrabando, contravenção e comércios conectados a qualquer ramo ou procedimento famigerado de algum arquétipo nascido e criado alheio a qualquer regra ou lei convencional. 


O fascinio instantâneo

O fascínio instantâneo

Claro que esse fascínio não é cego-surdo-mudo-burro-esclerosado. O que rola é o interesse sobre o maniqueísmo invertido, confuso, abstrato, quase inexistente, como se tivesse sido metralhado por todos esses indivíduos que levam a vida na má fé, transformando-se em um corpo sem vida e desfigurado, caído no próprio sangue em algum beco qualquer.

Aprendemos a amar a família Corleone, a torcer pela fuga do Carlito Brigante ou pela vingança de David Aaronson e até a decorar [com direito a sotaque e tudo mais] as falas de Tony Montana em sua ascensão no mundo das drogas em Miami. Quase que numa doutrina maquiavélica, torcemos para que os clãs mafiosos do cinema consigam superar todos os percalços e se safar ileso de todas as guerras. Vibramos com a matança metódica do assassino-herói que busca sucesso nos negócios à custa de crimes justificados como “it’s just business” [sempre dito com sotaque arrastado]. Pensamos ser, em nossa vã inocência de momento, só história, uma ficção bem montada e bem dirigida de algo que, no máximo, ocorreu há algumas décadas. Idéias essas reforçadas pelas estéticas exageradas dos novos diretores que retratam algum tipo de máfia (Tarantino, Guy Richie), com todo o sangue, sarcasmo e distância do mundo real. Vemos nesse momento de entretenimento toda a sagacidade que nos falta e injetamos em nossa mente toda essa coragem e paixão que esses sujeitos nos presenteiam. Ver um filme de máfia é se livrar de todos os dogmas que acumulamos [conscientes e inconscientes] em nossa vida e gozar de toda a felicidade de se ter uma arma quente nas mãos.

 

 

parte da cultura pop

Máfia: parte da cultura pop

 

 


Por outro lado, quando se trata da vida real, somos tomados por perplexidades diversas quando nos deparamos com noticias e informações de alguma máfia das quaisquer espalhadas pelo mundo, inclusive aqui. Pessoas chocadas com os corpos que são carbonizados em pneus nas favelas do Rio de Janeiro [a mando do tráfico de drogas, que não deixa de ser um tipo de máfia] ou das chacinas na região metropolitana de São Paulo [cobrança de não pagamento de drogas também a mando de chefões paulistanos]. As milícias extorquindo dinheiro como os napolitanos da Camorra, que também infestam o sul da Itália com milhares de toneladas de lixo tóxico, enfiando em cada buraco os restos químicos e venenosos das grandes indústrias do norte do país. Ficamos inconformados de saber da máfia nigeriana fazendo viagens de drogas [inclusive infestando a região da Luz, em São Paulo] e com a máfia russa que detém mais de 40% da riqueza do país [sem mencionar o tráfico humano que rende muito dinheiro com a prostituição de albanesas, croatas e eslovenas].

 

 

Trabalho da Camorra italiana

Trabalho da Camorra italiana

 

 


Apontamos o dedo e afirmamos: “bandido bom é bandido morto”. Damos as costas ao sistema carcerário e rezamos para que os putos safados apodreçam mesmo dentro de celas lotadas e ostracismo constante. Recorremos novamente á ficção para rir dos infinitos tapas na cara do Capitão Nascimento nos “drogadinhos de merda” que patrocinam o crime. Na vida real nós cuspimos no chão que um mafioso acabou de passar [e até cuspimos em sua cara, caso ele esteja duro e cravejado de balas no chão, claro] e recriminamos qualquer atitude desonesta, violenta, fora do eixo ou qualquer tendência sociopática. 

 

 

"Batalhão Especial"perseguindo traficantes no RJ

"Batalhão Especial"perseguindo traficantes no RJ

 

 


 A ficção é o respaldo e a vida real é a repulsa. Um “viva” á Tony Montana e uma vaia ao Abadía e suas cuecas vendidas a um real.

Quem é o violento? (Parte III)

Dezembro 2, 2008

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

 

Ambos os filmes são obras primas do cinema e corretamente classificados de Cult. Já a sociedade como um todo sempre aponta o dedo para encontrar bodes expiatórios de suas falhas. O homem já possui a violência dentro de si e isso virá a tona independente de algo que ele veja ou não. Cinema e outras artes não são influenciadores de nada, mas sim apenas faísca que desperta o que se tem de mais profundo dentro de cada mente.

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Censurar, reclassificar, recriminar ou reclamar de violência em demasia em qualquer das artes (o que hoje em dia também inclui Internet, games e quadrinhos) é um tanto quanto prematuro e inválido, uma vez que esses meios não são dissipadores de violência, mas sim de informação que cada um deve assimilar de acordo com seus repertórios de vida e suas convicções.

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Mais interessante e engraçado seria, ao invés de censurar e criticar expressões artísticas que incomodam e provocam como acontece com os filmes citados, poderíamos censurar e criticar a nós mesmos, que fazemos questão de enxergar só o raso e não a subjetividade encantadora que essas obras carregam. Até porque, sem a reflexão em nossas vidas, sem as artes em nossas vidas, continuaremos a nos atacar e a nos violentar, mas um retrocesso começará a acontecer até que acabaremos num futuro não muito distante, saindo de grutas úmidas com clavas rudimentares nas mãos pra procurar animais pequenos e suculentos para saciar nossa fome e, além disso, continuaremos a esmagar crânios de nossos companheiros de caça para saciar nossa sede. A sede de violência gratuita e desmedida.

Quem é o violento? (Parte II)

Dezembro 2, 2008

O cinema já retratou diversas formas de violência em diversos estágios e de diversas maneiras, mas dois desses filmes chamam muita atenção pela polêmica criada e pelo título de Cult que receberam.

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Em 1971, o diretor Stanley Kubrick lançou seu filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), baseado no livro homônimo do escritor Anthony Burgess. O filme se tornou um clássico e hoje é peça fundamental na coleção de qualquer cinéfilo de plantão. Na época em que foi lançado, o filme foi tachado de absurdo e impróprio, pois continha cenas muito fortes de violência e erotismo.

No final do século passado, outro filme ganhou notoriedade pela maneira com que mostrava a violência, exaltando-a e criando discussões. Clube da Luta (Fight Club – 1999) foi dirigido por David Fincher e também baseado em livro homônimo do escritor Chuck Palahniuk. Este filme, ao ser lançado, chegou a receber o apelido carinhoso de “Laranja Mecânica dos anos 90”.

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Tivemos na década de 70 uma sociedade hipócrita e cega. Na década de 80, 90 e nos dias de hoje, no tão sonhado novo milênio, temos a mesma sociedade hipócrita e cega. Uma sociedade extremamente violenta que não mede esforços pra conseguir o que quer, atacando outros física e moralmente. Uma sociedade enganada por seus governantes, condicionada por seus anunciantes e cercada por uma cultura de consumo, medo e solidão. Kubrick avisou a todos sobre isso em seu filme, Fincher reafirmou o aviso com outro filme, e a maioria das pessoas não deu atenção. Apenas se chocaram com as “barbáries” cometidas em algumas cenas de violência gratuita e desmedida, feitas justamente para propor uma auto-avaliação do ser humano e seu papel na tal sociedade.

O problema maior é que as pessoas não estavam preparadas na época em que Laranja Mecânica foi lançado, não estavam preparadas quando Clube da Luta foi lançado e não estão preparados hoje para ver seus próprios defeitos escancarados na tela grande do cinema e, ao vê-los, tentam achar um culpado. O próprio cinema. A adaptação de Kubrick é visceral e brilhante. O diretor provoca o expectador com desorientações ao cometer erros de continuidade propositais, trocando pratos de posição durante a seqüência de cenas e também o nível de vinho nas garrafas mudam em diversas tomadas. Quebra tabus ao exibir nudez, símbolos eróticos e violência escancarada o tempo todo e denuncia que a verdadeira violência parte de um governo totalitário e vil.

No documentário Tiros em Columbine (Bowling for Columbine – 2002), o diretor Michael Moore entrevista o cantor Marylin Manson, que teve suas músicas acusadas de influenciar os meninos que provocaram o massacre no colégio dos Estados Unidos. Uma frase que chama muito a atenção é a seguinte: “Quem é mais influente: o presidente ou Marylin Manson?” (No mesmo dia do massacre de Columbine, os EUA lançaram mais bombas em Kovoso do que durante a guerra toda).

No filme Laranja mecânica, o governo se mostra mais violento do que Alex e seus druguies, desenvolvendo um programa de recuperação de presos, onde a lavagem cerebral simplesmente deleta a liberdade de escolha de uma pessoa. O mesmo governo que contrata delinqüentes para fazer parte de uma policia corrupta e que intimida. A ironia também é peça fundamental da película, pois Alex é um garoto tomado de extrema violência, mas sua música preferida é a 9º sinfonia de Beethoven, conhecida como a sinfonia da “paz e da união entre os homens”.

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Clube da luta causou furor ao exaltar a violência, justificar terrorismo urbano e despejar um conteúdo denso de liberdade das coisas materiais através do abandono puro e simples de qualquer comodidade: “As coisas que você possui acabam te possuindo. Você só é realmente livre após perder tudo. Pois ai não terá o que perder, e, enfim, encontrar-se-á livre”. Esta é uma das frases usadas pelo intrigante Tyler Durden (Brad Pitt), alter ego do narrador da história interpretado por Edward Norton. Esta segunda personagem não tem o nome revelado no filme e vive uma vida vazia, regada a consumo excessivo e solidão constante. Nada mais o agrada e, ao “conhecer” o Sr. Durden em uma de suas viagens como inspetor de sinistros de uma grande companhia de seguros, começa a tomar novos ares e novos rumos.

No Brasil temos ainda um adendo na repercussão do filme, quando um estudante entrou em uma sala do Shopping Morumbi em São Paulo onde o filme estava sendo exibido e, com uma metralhadora, atirou a esmo ferindo várias pessoas. Esse episódio foi tema de debates e mais debates na mídia por semanas, criando uma atmosfera ainda mais pesada para o filme.

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Fincher foi corajoso e ousado ao adaptar essa obra para o cinema, com diálogos ácidos e um ritmo frenético, iniciado por imagens velozes do interior do sistema nervoso, culminando na saída do corpo e identificando a personagem de Edward Norton. Imagens do Tyler Durden são inseridas em alguns frames propositalmente, desnorteando o expectador que não tem certeza se viu ou não algo estranho nas cenas iniciais (fato que depois é explicado, quando o narrador nos conta as diversas profissões exercidas por Durden). O filme denuncia todos os distúrbios que a publicidade, a comunicação em massa e a cultura de ostentação pode nos causar. A violência que essas armas do capitalismo exerce sobre nossas cabeças é muito mais aterrorizante, traumatizante e feia do que todo o sangue que Tyler derruba no dono do porão onde o clube tem sede.

A ironia maior do filme fica por conta do frenesi causado pela personagem de Brad Pitt que fazia o caminho inverso do chamado “natural”. Quanto mais o público o conhecia, mais o admirava e mais heróico se tornavam seus atos e modos de vida. Enquanto a publicidade dita que as pessoas têm que adquirir status com as coisas que consomem, Tyler adquiria admiradores e fama afundando-se cada vez mais, seguindo o caminho inverso e mostrando ao narrador que tudo deve ser abandonado para que se consiga a tal “liberdade”. Tyler é uma celebridade às avessas.

 

 

(Continua no próximo post)

 

Quem é o violento?

Dezembro 2, 2008

 

INTRODUÇÃO:

 

vi.o.lên.cia   sf   (lat violentia)
1 Qualidade de violento. 2 Qualidade do que atua com força ou grande impulso; força, ímpeto, impetuosidade. 3 Ação violenta. 4 Opressão, tirania. 5 Intensidade. 6 Veemência. 7 Irascibilidade. 8 Qualquer força empregada contra a vontade, liberdade ou resistência de pessoa ou coisa. 9 Dir Constrangimento, físico ou moral, exercido sobre alguma pessoa para obrigá-la a submeter-se à vontade de outrem; coação. Antôn (acepção 7): brandura, doçura.

 

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Nos primórdios da humanidade, quando tudo eram trevas e dúvidas, dois chamados “homens das cavernas” tiveram a brava atitude de sair de seus refúgios escuros para se alimentar. Portavam clavas de madeira bem rudimentares para se defender no admirável mundo que lhes era tão novo.

Caminharam juntos por algumas horas, encontraram frutas pelo caminho, mas que não chegaram a sanar-lhes a fome de vários dias entocados na tal gruta. Sentaram-se por alguns instantes para descansar as pernas pouco resistentes e ouviram barulhos vindo de algum local não muito distante. Correram na direção dos sons e avistaram um animal pequeno, mas que parecia ser muito suculento. Pularam pra cima dele com sagacidade e o abateram sem nem usar suas armas.

Ambos se olharam com entusiasmo e orgulho mútuo, sorrindo e soltando grunhidos exaltados. Nesse momento, um dos homens tirou o sorriso da cara e encarou seu companheiro de caça que ainda fitava com olhos brilhantes sua vitória contra o animalzinho e contra a fome. Sem pensar duas vezes, pegou sua clava do chão e afundou parte do crânio do parceiro num golpe forte e certeiro. A fulminante pancada fez com que o pobre homem caísse já de olhos fechados e sangue manchando sua face, corpo e tingindo o chão de terra.

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Nascia ali o primeiro ato de violência na sociedade.

Daí pra frente tivemos Julio César, Jesus Cristo, Templários, índio Pataxó até os dias de hoje. “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe” é a frase mais conhecida do iluminista e precursor do romantismo Jean-Jacques Rousseau e sintetiza bem todo o assunto que vamos tratar.

(Continua no post de amanhã)