Confesso publicamente que sou cria absurdamente mimada de Coppola-Scorcese-Leone-De Palma. Com seus poderosos chefões, seus bons companheiros, suas vezes no oeste e na América, seus pagamentos finais, gangues de NY ou qualquer outro tipo de aglomerados de estereótipos ítalos ou latinos, acabaram por me fazer apaixonado por tudo que possa ter respeito com o submundo do mundo, visto pelos olhos, sucessos e dores das personagens que eternizaram a maestria de figurinhas fáceis como Marlon Brando, Al Pacino e Robert De Niro. Máfia, Crime organizado, desorganizado, todo o tipo de tráfico, contrabando, contravenção e comércios conectados a qualquer ramo ou procedimento famigerado de algum arquétipo nascido e criado alheio a qualquer regra ou lei convencional.

O fascínio instantâneo
Claro que esse fascínio não é cego-surdo-mudo-burro-esclerosado. O que rola é o interesse sobre o maniqueísmo invertido, confuso, abstrato, quase inexistente, como se tivesse sido metralhado por todos esses indivíduos que levam a vida na má fé, transformando-se em um corpo sem vida e desfigurado, caído no próprio sangue em algum beco qualquer.
Aprendemos a amar a família Corleone, a torcer pela fuga do Carlito Brigante ou pela vingança de David Aaronson e até a decorar [com direito a sotaque e tudo mais] as falas de Tony Montana em sua ascensão no mundo das drogas em Miami. Quase que numa doutrina maquiavélica, torcemos para que os clãs mafiosos do cinema consigam superar todos os percalços e se safar ileso de todas as guerras. Vibramos com a matança metódica do assassino-herói que busca sucesso nos negócios à custa de crimes justificados como “it’s just business” [sempre dito com sotaque arrastado]. Pensamos ser, em nossa vã inocência de momento, só história, uma ficção bem montada e bem dirigida de algo que, no máximo, ocorreu há algumas décadas. Idéias essas reforçadas pelas estéticas exageradas dos novos diretores que retratam algum tipo de máfia (Tarantino, Guy Richie), com todo o sangue, sarcasmo e distância do mundo real. Vemos nesse momento de entretenimento toda a sagacidade que nos falta e injetamos em nossa mente toda essa coragem e paixão que esses sujeitos nos presenteiam. Ver um filme de máfia é se livrar de todos os dogmas que acumulamos [conscientes e inconscientes] em nossa vida e gozar de toda a felicidade de se ter uma arma quente nas mãos.

Máfia: parte da cultura pop
Por outro lado, quando se trata da vida real, somos tomados por perplexidades diversas quando nos deparamos com noticias e informações de alguma máfia das quaisquer espalhadas pelo mundo, inclusive aqui. Pessoas chocadas com os corpos que são carbonizados em pneus nas favelas do Rio de Janeiro [a mando do tráfico de drogas, que não deixa de ser um tipo de máfia] ou das chacinas na região metropolitana de São Paulo [cobrança de não pagamento de drogas também a mando de chefões paulistanos]. As milícias extorquindo dinheiro como os napolitanos da Camorra, que também infestam o sul da Itália com milhares de toneladas de lixo tóxico, enfiando em cada buraco os restos químicos e venenosos das grandes indústrias do norte do país. Ficamos inconformados de saber da máfia nigeriana fazendo viagens de drogas [inclusive infestando a região da Luz, em São Paulo] e com a máfia russa que detém mais de 40% da riqueza do país [sem mencionar o tráfico humano que rende muito dinheiro com a prostituição de albanesas, croatas e eslovenas].

Trabalho da Camorra italiana
Apontamos o dedo e afirmamos: “bandido bom é bandido morto”. Damos as costas ao sistema carcerário e rezamos para que os putos safados apodreçam mesmo dentro de celas lotadas e ostracismo constante. Recorremos novamente á ficção para rir dos infinitos tapas na cara do Capitão Nascimento nos “drogadinhos de merda” que patrocinam o crime. Na vida real nós cuspimos no chão que um mafioso acabou de passar [e até cuspimos em sua cara, caso ele esteja duro e cravejado de balas no chão, claro] e recriminamos qualquer atitude desonesta, violenta, fora do eixo ou qualquer tendência sociopática.

"Batalhão Especial"perseguindo traficantes no RJ
A ficção é o respaldo e a vida real é a repulsa. Um “viva” á Tony Montana e uma vaia ao Abadía e suas cuecas vendidas a um real.







