Posts com Tag ‘Cinema’

Maravilhas em Preto e Branco

Março 31, 2009

Simples. Depois de ficar divagando sobre as cores Radioheadianas (no último post), me veio a idéia de enumerar algumas maravilhas em preto e branco. Sem ordem de importância ou caracterização, decidi colocar algumas das coisas que adoro e que, por acaso do destino, foram concebidas em duas cores.

 

 

Charlie Chaplin:

 

"The Tramp"

"The Tramp"

 

Nunca ninguém fez tanto com tão pouco. O vagabundo era o mesmo, os motes para rir eram os mesmos, os contextos podiam variar bastante, mas a sentimentalidade era a mesma.

 

Charlie era metódico e intenso. Carlitos era assistemático por talento e afetuoso por carência. Chaplin não se continha e sempre inseria suas ideologias em suas películas. O Vagabundo se resguardava, até porque não podia falar (isso até “O Grande Ditador”, em que o barbeiro judeu finalmente disse tudo que o velho Chaplin e o próprio Vagabundo sempre quiseram desabafar). E nem posso dizer que são os dois lados de uma mesma moeda. Charlie Chaplin é um tesouro cunhado com esmero, uma estrela poderosa da Hollywood do começo do séc. XX (tinha o próprio estúdio, fazia os próprios roteiros que ele próprio os dirigia e atuava). Carlitos não valia um tostão furado além do valor simbólico de ser uma das personagens mais queridas e lembradas de toda a história do cinema. Claro que ambos são uma única entidade e é justamente esse o grande fascínio que temos por criador e criatura que se completam e se caracterizam por sempre se mostrarem, cada um a seu jeito, amantes profundos das grandes e pequenas coisas.

 

Carisma em "Tempos Modernos"

Carisma em "Tempos Modernos"

 

 

 

Os Três Patetas:

 

Moe, Larry e Curly

Moe, Larry e Curly

 

E pensar que, na verdade, nem eram só três. Moe, Larry, Curly, Chemp e Joe. Estava formado o pastelão mais divertido dos anos 40 e 50. Uma espécie de “Os Trapalhões dos anos dourados” em que um era o líder sério, o outro era o desatento e ainda tinha um último que se dotava de uma inocência incessante. Os esquetes também rodavam em torno de um mesmo eixo: se dar bem.

 

Claro que, nessa premissa de enganar ou driblar situações pra garantirem alguma jogada, armava-se uma intensa confusão cheia de coisas voando, correrias e caretas. O mais legal era a semelhança que o trio tinha com os desenhos animados que e faziam pela violência gratuita e (aparentemente) sem maldade. Valia de um tudo pra surpreender e arrancar diversas gargalhadas, desde tapas na cabeça, passando por sopapos na cara, pisões no pé, ganchos no estômago, sabão goela abaixo, sapatadas, agulhadas, mordidas, pontapés, fugas aos tropeços, xingamento exacerbado e a clássica dedada nos olhos (cuja defesa mais eficaz era colocar a mão na frente do nariz, evitando assim que o dedo indicador e o médio golpeassem as bolas do zóio). 

 

O clásico pastelão

O clásico pastelão

 

 

 

 

Alfred Hitchcock:

 

o Careca e sua "Psicose"

o Careca e sua "Psicose"

 

Não é chamado de Mestre à toa. Meticuloso ao extremo, Hitchcock fez escola e definiu o que é um filme de mistério. De Receba (a mulher inesquecível) à Cortina rasgada. Janela Indiscreta, Psicose, Um Corpo que Cai. O diretor inglês sabia com primor como mexer com nosso psicológico, como aguçar o nosso voyeurismo, como nos atormentar com apaixonadas perigosas e homens transtornados com suas mães. Dirigiu James Stewart e Cary Grant, este último, um dos poucos que conseguiu atuar em diversas películas do careca excêntrico, já que é de conhecimento que Alfred Hitchcock tacava o puteiro geral quando dirigia seus filmes (possuindo até a célebre frase “Ator pra mim é como gado”).

 

Hitchcock divagando em seu set

Hitchcock divagando em seu set

 

O mais interessante mesmo é como um bom suspense fica ainda melhor em preto e branco.     

 

 

Sin City:

 

Imagens capturadas como nos quadrinhos

Imagens capturadas como nos quadrinhos

Temos uma unanimidade – Frank Miller sabe fazer quadrinhos. Seja como desenhista, roteirista ou criando tudo, do começo ao fim, tudo que envolve seu nome vira objeto cultuado. O Cavaleiro das Trevas, (Demolidor,) O Homem sem Medo, Elektra e uma infinidade de mini-séries que se destacaram pela qualidade dos traços e a profundidade dos temas.

 

Temos também uma confusão – Nem todo mundo acha que Frank Miller sabe fazer cinema. 300 (de Esparta) dividiu críticas e (o ainda não lançado) Spirit já foi bem chutado pelos especialistas (do cinema e dos quadrinhos). Mesmo assim, um filme de Frank Miller sempre gera $ e discussão.

 

Sin City é sua obra mais querida e divisora de águas – tanto nos quadrinhos quanto nos cinemas. Personagens dos mais carismáticos são inseridos a rodo nas tramas que sempre envolvem a protagonista: A Cidade. São monstros, heróis e deusas que vão e vem na noite fria impregnada de violência, sexo e…Pecado.

 

Marv - O sociopata mais querido

Marv - O sociopata mais querido

 

 

Doze Homens e uma Sentença:

 

o Big Brother em preto e branco

o Big Brother em preto e branco

Em uma conversa de boteco, estávamos Rafael Campos, Pedro Jansen e eu, admirando os colhões que teve Christopher Nolan ao filmar duas cenas do Batman (O Cavaleiro das Trevas) sem usar efeitos especiais. Nos dias de hoje, gravar aquela cena do caminhão tombando e da explosão do hospital pra valer, numa única chance (imagina a $ e o tempo tomado caso tudo desse errado) era mesmo um fato digno de pagação de pau. Mas colhão, colhão mesmo é colocar praticamente todo o elenco que se tem dentro de uma sala apertada e desenrolar a trama quase toda no tal cubículo. E mais colhões ainda é fazer disso tudo um dos maiores clássicos do cinema. A parada é a seguinte: um grupo de pessoas deve decidir o destino de um acusado de assassinar o próprio pai. Onze deles são taxativos – Culpado. Mas Henry Fonda, o jurado de número 8 discorda – Ele é inocente.

 

Nisso tudo se desenrola um interessante estudo antropológico da convivência em grupo do ser humano (isso muito antes de alguém vir pra “inventar” o Big Brother, hein) em situações complicadas, sob forte pressão e em lugares restritos (os doze jurados só podiam sair da sala com uma decisão unânime). Botar tudo isso nas costas e voltar com um filme ótimo, ah…não é pra qualquer um não (palmas para o diretor, Sidney Lumet).

 

Os jurados

Os jurados

 

I Don’t Know What To Do With Myself:

 

Kate Moss

Kate Moss

 

Simplificando – uma mulher gata fazendo lap dance é sempre uma mulher gata fazendo um lap dance. E tenho dito.

 

Jack White conheceu a modelo Kate Moss, que lhe confessou ser grande fã da dupla White Stripes. E ele disse como quem não quer nada – “Hey, você poderia então participar de um clipe nosso”. Para a sua surpresa (e nosso deleite), ela disse sim e, como dizem por aí, o resto…é história.

 

O vídeo, pra completar, foi dirigido pela Sofia Coppola e é simples e objetivo: uma modelo gata, um cano estrategicamente posicionado e a sensualidade natural que exala tanto da Kate Moss e seus pezinhos vagando no ar quanto da delicadeza sempre presente da menina Coppola. Tudo isso, claro, com a indagação mais pertinente pro momento: “I just don’t know what to do with myself”.

 

 

 

Blade – A Lâmina do Imortal:

 

Manji

Manji

Páginas e páginas onde a delicadeza da tradição incrustada na alma japonesa se encontra com a sede de violência tão pertinente ao mundo ocidental, criando um dos mangás mais gostosos de ler. A história em si é bem simples e a imagem e semelhança de outras tramas nipônicas não é mera coincidência: Manji, o guerreiro que fode com todo mundo, se arrepende, mas uma maldição faz com que ele continue a fazer o que faz de melhor (foder com todo mundo). Mas dessa vez, em prol da boa ação. O armipotente agora é imortal e vive recluso, só podendo bater as botas depois de matar 1000 (sim, eu escrevo por extenso – mil) criminosos. E já que é pra retalhar geral, Manji decide ajudar uma pequena em sua vingança dos pais mortos contra um grupo de rebeldes que acham que fodem com todo mundo (o Itto-ryu). O desenho é bem traçado e em algumas páginas temos verdadeiras pinturas tomadas de extrema doçura, mostrando ápices de batalhas brutais. Toda a coisa também vem recheada de informações interessantes sobre as tradições e costumes do Japão feudal, explicando nomes, termos e situações que melhor nos ambientam no verdadeiro massacre que Manji provoca por onde passa.

 

Delicado e brusco

Delicado e brusco

 

 

Dylan Dog:

 

o "detetive do pesadelo" e a Morte

o "detetive do pesadelo" e a Morte

 

Também chamado de “o detetive do pesadelo”, Dylan Dog é o protagonista do quadrinho mais famoso da Itália e, se tudo continuar correndo bem, vai virar filme em breve.

 

A HQ é da década de 80 e fez um sucesso relevante em muitos países, apesar de ter tido seus altos e baixos aqui no Brasil (vários cancelamentos e relançamentos em diversas editoras).

 

Dog é um ex-agente da Scotland Yard que largou seu posto para prestar serviços particulares em um escritório, sempre contando com a presença de seu inseparável ajudante, o (como o próprio detetive diz) “famoso comediante” Grouxo Marx. Dylan Dog está sempre de camisa vermelha, jeans, paletó preto (os quadrinhos são em preto e branco, mas as capas sempre são coloridas) e também não sai de casa sem sua coleção de piadas e comentários politicamente incorretos. Agora…por que raios “detetive do pesadelo”?

 

Dog só pega casos escabrosos que envolvem assassinatos, cemitérios, sobrenatural e pactos com o Coisa-Ruim. Os quadrinhos são imersos em mistério, suspense e dilemas que mexem com religião, moral e qualquer tipo de bons costumes. Os traços de nanquim muitas vezes beiram o grosseiro e desenvolvem todo tipo de sensualidade, tragédias, rituais macabros que invocam demônios, envolvem sacerdotes e mulheres nuas prontas para o…sacrifício.

 

Eu cheguei a ter um especial em que Dylan Dog se via obrigado a fazer parceria com Martin Mystère (personagem de um quadrinho francês, também dos anos 80) numa aventura que chegou a ter uma rápida (e nem um pouco tranquila) descida ao Inferno e a descoberta de que o careca de óculos escuros que ambos perseguiam era, na verdade, o Pé-Preto himself. Cruz-credo!

 

Dylan Dog e seus demônios

Dylan Dog e seus demônios

 

 

 

Estrelas em Preto e Branco:

 

Marilyn Monroe

Marilyn Monroe

 

Fotos de grandes estrelas em preto e branco são quase sempre mais legais que as fotos de grandes estrelas em cores. Seja no glamour, na nostalgia, na poética ou no estilo que caracteriza essas imagens estáticas que artistas que admiramos, uma foto em PB pode realmente definir, no ato, todo o propósito de tal registro.

 

Rat Pack

Rat Pack

 

O Glamour da era de ouro de Hollywood, com suas divas e seus cantores-atores. Marilyn Monroe, Audrey Hepburn, Frank Sinatra e os outros Rat Packs, Dean Martin e Sammy Davis Jr. De James Dean a Marlon Brando. Nossos mestres da música brasileira imortalizados em dois tons. Noel, Caymmi, Tom e Vinícius em momentos de descontração, de Cartola a Chico Buarque na época em que cultivava seu bigode.

 

Audrey Hepburn

Audrey Hepburn

 

Da era ieieiê doa Beatles até os poderosos homens de negócio da música, como o impiedoso esmagador da concorrência no Rap gringo, Jay Z. As cores estão aí há mais de muito tempo, mas o que faz mesmo a cara de qualquer musico, ator ou qualquer aspirante ao estrelato é mesmo as poses em duas cores.

James Dean

James Dean

 

 

 

Cartola

Cartola

 

 

 

Chico Buarque

Chico Buarque

 

 

 

mestre Dorival Caymmi

mestre Dorival Caymmi

 

 

 

Jay Z

Jay Z

 

 

 

Arctic Monkeys

Arctic Monkeys

 

 

 

Barack "newest popstar" Obama

Barack "newest popstar" Obama

 

[Claro que faltaram várias maravilhas em PB para se comentar - de O Gordo e o Magro e Comedy Papers a Calvin e Haroldo. Mas quem sabe essepost não tem uma continuidade em algum blog por aí. Clro que, se houver, venham me avisar]

De “Padrinho” a carcamano num piscar de olhos.

Fevereiro 11, 2009

 

Confesso publicamente que sou cria absurdamente mimada de Coppola-Scorcese-Leone-De Palma. Com seus poderosos chefões, seus bons companheiros, suas vezes no oeste e na América, seus pagamentos finais, gangues de NY ou qualquer outro tipo de aglomerados de estereótipos ítalos ou latinos, acabaram por me fazer apaixonado por tudo que possa ter respeito com o submundo do mundo, visto pelos olhos, sucessos e dores das personagens que eternizaram a maestria de figurinhas fáceis como Marlon Brando, Al Pacino e Robert De Niro. Máfia, Crime organizado, desorganizado, todo o tipo de tráfico, contrabando, contravenção e comércios conectados a qualquer ramo ou procedimento famigerado de algum arquétipo nascido e criado alheio a qualquer regra ou lei convencional. 


O fascinio instantâneo

O fascínio instantâneo

Claro que esse fascínio não é cego-surdo-mudo-burro-esclerosado. O que rola é o interesse sobre o maniqueísmo invertido, confuso, abstrato, quase inexistente, como se tivesse sido metralhado por todos esses indivíduos que levam a vida na má fé, transformando-se em um corpo sem vida e desfigurado, caído no próprio sangue em algum beco qualquer.

Aprendemos a amar a família Corleone, a torcer pela fuga do Carlito Brigante ou pela vingança de David Aaronson e até a decorar [com direito a sotaque e tudo mais] as falas de Tony Montana em sua ascensão no mundo das drogas em Miami. Quase que numa doutrina maquiavélica, torcemos para que os clãs mafiosos do cinema consigam superar todos os percalços e se safar ileso de todas as guerras. Vibramos com a matança metódica do assassino-herói que busca sucesso nos negócios à custa de crimes justificados como “it’s just business” [sempre dito com sotaque arrastado]. Pensamos ser, em nossa vã inocência de momento, só história, uma ficção bem montada e bem dirigida de algo que, no máximo, ocorreu há algumas décadas. Idéias essas reforçadas pelas estéticas exageradas dos novos diretores que retratam algum tipo de máfia (Tarantino, Guy Richie), com todo o sangue, sarcasmo e distância do mundo real. Vemos nesse momento de entretenimento toda a sagacidade que nos falta e injetamos em nossa mente toda essa coragem e paixão que esses sujeitos nos presenteiam. Ver um filme de máfia é se livrar de todos os dogmas que acumulamos [conscientes e inconscientes] em nossa vida e gozar de toda a felicidade de se ter uma arma quente nas mãos.

 

 

parte da cultura pop

Máfia: parte da cultura pop

 

 


Por outro lado, quando se trata da vida real, somos tomados por perplexidades diversas quando nos deparamos com noticias e informações de alguma máfia das quaisquer espalhadas pelo mundo, inclusive aqui. Pessoas chocadas com os corpos que são carbonizados em pneus nas favelas do Rio de Janeiro [a mando do tráfico de drogas, que não deixa de ser um tipo de máfia] ou das chacinas na região metropolitana de São Paulo [cobrança de não pagamento de drogas também a mando de chefões paulistanos]. As milícias extorquindo dinheiro como os napolitanos da Camorra, que também infestam o sul da Itália com milhares de toneladas de lixo tóxico, enfiando em cada buraco os restos químicos e venenosos das grandes indústrias do norte do país. Ficamos inconformados de saber da máfia nigeriana fazendo viagens de drogas [inclusive infestando a região da Luz, em São Paulo] e com a máfia russa que detém mais de 40% da riqueza do país [sem mencionar o tráfico humano que rende muito dinheiro com a prostituição de albanesas, croatas e eslovenas].

 

 

Trabalho da Camorra italiana

Trabalho da Camorra italiana

 

 


Apontamos o dedo e afirmamos: “bandido bom é bandido morto”. Damos as costas ao sistema carcerário e rezamos para que os putos safados apodreçam mesmo dentro de celas lotadas e ostracismo constante. Recorremos novamente á ficção para rir dos infinitos tapas na cara do Capitão Nascimento nos “drogadinhos de merda” que patrocinam o crime. Na vida real nós cuspimos no chão que um mafioso acabou de passar [e até cuspimos em sua cara, caso ele esteja duro e cravejado de balas no chão, claro] e recriminamos qualquer atitude desonesta, violenta, fora do eixo ou qualquer tendência sociopática. 

 

 

"Batalhão Especial"perseguindo traficantes no RJ

"Batalhão Especial"perseguindo traficantes no RJ

 

 


 A ficção é o respaldo e a vida real é a repulsa. Um “viva” á Tony Montana e uma vaia ao Abadía e suas cuecas vendidas a um real.

O Curioso Caso de Benjamin Button 2 (ou “outro olhar”)

Fevereiro 3, 2009

 

O que te faz rejuvenescer?

 

Todos temos fragmentos de Benjamin Button incrustados em nossas vidas, almas ou o que quer que seja que faz nosso mundo girar – do começo ao fim.

 

Claro que a primeira impressão que temos de ter é que rejuvenescer não é retroagir, assim como se fazia o relógio que contava o tempo num avesso esperançoso de mudar determinadas realidades. Tendo isso pensado, podemos retornar à pergunta (voltar a um determinado ponto que não tinha continuação): O que te faz rejuvenescer? – Insisto na questão para o bel desenvolvimento de nossos pensamentos.

 button-dois-1

No caso de B. Button, o rejuvenescimento era causado de forma (des)natural deixando-o mais jovem dia após dia. Chegamos ao paradoxo mais óbvio do filme: quanto mais novo, mais velho.

 

Saí do cinema bem confuso bom essas informações acrescidas de todos os julgamentos que tinha em minha cabeça sobre o filme em si. Hoje, tomado de uma organização melhor desse conjunto de conhecimentos e conclusões, passo a me cobrir com a sorte e consolidar de toda vez que quando rejuvenescemos, envelhecemos.

 

No decorrer da trama, a personagem de Brad Pitt vai ganhando vivacidade física com o passar do tempo: de careca aos cabelos acinzentados e então um penteado de um dourado vivo; de canelas secas e sem vigor a coxas mais complacentes até as pernas segurar e obstinadas. Mas não temos, em contrapartida, uma mente correndo no mesmo inverso. Com cada nova experiência, temos uma mente cada vez menos curiosa e cada vez mais sábia. Button envelhece a medida que fica mais novo.

 button-dois-2

O autor do conto que deu origem ao filme, F. Scott Fitzgerald, tirou a idéia da célebre frase de Mark Twain ”A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer aos 80 anos e gradualmente chegar aos 18. O grande desejo dessa frase é justamente ajustar o erro do tempo que melhora a cabeça e definha o resto, mas esquece que nada é pra sempre. Fitzgerald não se esqueceu disso e nem a patota que meteu a loucura de levar esse mesmo conto pra tela grande.

 button-dois-3

Realmente existe uma defasagem entre o auge do corpo e da mente, mas independente de qualquer um dos andamentos da vida (nossa ou de Button), o resultado final é sempre o mesmo (assim como pudemos ver no filme um corpo novo de garoto lidando com uma mente já gasta após cerca de oitenta anos de uso). Por diversas vezes já dito, exemplificado e comprovado, “a vida é uma parábola”; a gente pode até não saber os pontos de ascensão, ápice e declínio, mas ela sempre vai se achar com pontos no mesmo patamar (a mesma impaciência da criança e do velho, a mesma teimosia, vagarosidade no andar, no raciocínio, a mesma inocência na infância e na senilidade). Pra chutar o balde de vez, estamos todos fadados a ir pro saco.  Estamos condenados todos a uma única maldição irremediável que é a morte certa (de que acontecerá) e por demais duvidosa (onde-como-quando-por que-pra onde ir depois).

 

Pensamos ser algo terrível, mas, assim como a vida é tão obvia que a gente complica-a, a morte está tão na cara que a gente a evita e, com isso, acabamos evitando a própria vida. Conhecer nossas limitações (assim como Button as conhecia bem, do início ao fim), aproveitar nossa vida como ela deve ser aproveitada (com um bom conhecimento de si, assim como Button conhecia-se – e não um conhecimento científico, mas sim aquele algo mais que não precisa necessariamente ser explicado, mas que faz todo o sentido) e, ficando mais velho ou mais novo, “O mais importante é que a nossa emoção sobreviva”.

 

o que te faz rejuvenescer?]

Tu ainda não respondeu: o que te faz rejuvenescer?

O Curioso Caso de Benjamin Button

Janeiro 28, 2009

 

Comecei reparando na parte técnica do filme. A atuação do Brad Pitt começou de modo sensacional e me deixava desconcertado vê-lo fazer, tudo junto e misturado, a cara de um senhor definhado por inúmeras dificuldades físicas que costumam nos acompanhar no fim da vida e as caretas fascinantes de uma curiosidade infantil pelas novas experiências da vida (atuação mesmo, e não só a ótima maquiagem ou os efeitos especiais responsáveis por criar um Pitt velho e novo ao mesmo tempo).

 benjamin-button-1

Fiquei também estabelecendo mentalmente as diferenças, das básicas às mais sutis, na direção do David Fincher que resolveu abandonar (pelo menos por hora, já que chegou a declarar que preferia ter um cigarro apagado em seu olho a dirigir uma continuação de Seven) projetos mais conturbados e contestadores pra cair de cabeça em um trabalho mais sóbrio e filosófico. Foi logo na fonte e agarrou um conto do sóbrio e filosófico F. Scott Fitzgerald (escritor americano dos anos 20 e 30). Daí que comecei a refletir sobre a escrita desse autor do maravilhoso “O Grande Gatsby” na adaptação de “O Curioso Caso de Benjamin Button“, a nova sensação dos cinemas tupiniquins.

 benjamin-button-3

Mesmo com o roteiro de Eric Roth (o mesmo de Forrest Gump), a essência de Fitzgerald está ali e, pra uma história que tinha tudo para ser feita, recheada e coberta de açúcar, Fincher não amarela e faz um ótimo trabalho mantendo a delicadeza e contemplação, mas deixando todo o contexto de reflexões e questionamentos do expoente da chamada “geração perdida” da literatura americana.

 

Foi lindo de ver e deslizar junto com a trama de praticamente três horas.  Foi lindo me sentir incomodado, repensando minha escrita e todas as teorias da velha e sagrada disputa “metafísica VS niilismo”. Foi delicioso analisar e concluir que esse pode não ser um ótimo filme, mas é um filme ótimo. Eu explico.

 benjamin-button-2

Nessa atual correria de palpites e apostas para o Oscar 2009, a película estrelada também pela estrela da vez, Cate Blanchett, se encontrou numa situação complicada: recebeu dezenas de indicações para o Globo de Ouro e para o prêmio do Sindicato dos Atores e a Associação de Produtores de Cinema e TV Americana (festas que antecedem o principal prêmio da academia e que servem de “termômetro” para especulações) e não recebeu uma estatuetazinha sequer (e ainda é um dos líderes de indicações ao Oscar). Creio que “The Curious Case of Benjamin Button” seja muito bom pelo todo e pela carga de idéias que cancã ao decorrer da história, Mas que em termos de prêmios isolados, perde mesmo para seus concorrentes (falando dos prêmios principais – Slumdog Milionaire realmente desponta como melhor filme e Sean Penn já tem uma mão no careca de ouro deste ano). Por ter também esse aspecto sentimental, pode fazer com que alguns torçam o nariz e não sejam pegos de jeito por conta desse bloqueio a filmes mais contemplativos, enquanto outros que se ludibriam com romances podem não captar as nuances de pensamentos justamente por se verem ansiosos com o desenrolar da vida amorosa das personagens.

 benjamin-button-4

Com qualquer uma dessas opções, fica a dica para a verdadeira gana do filme, ou seja, as toneladas de informações que recebemos sem dó sobre a vida, a morte, as esperas e os supetões, chegando aos difíceis tratamentos que damos aos relacionamentos diversos (me segurei o texto todo pra não aprofundar essas idéias justamente por não saber quem já assistiu o filme ou não, pois o que conta mesmo não é a minha opinião, mas sim o meu sucesso em conseguir fazer com que, ao verem o filme, consigam captar tudo ou mais que eu absorvi).

 

Saí da sala escura completamente atordoado e com a completa certeza de que eu teria alguma sequela se forçar tanto o cérebro, ou então teria alguma epifania linda que transformaria meu jeito de ver a vida. Mas claro que já estou bem mais recomposto do baque, afinal, “nada é pra sempre, minha querida Daisy”. 

 

Obs: Com certeza não me aguentarei e colocarei outro post com comentários mais profundos aquém do filme em sí. Apareçam em breve para conferí-los.

Why So Serious…?

Janeiro 13, 2009

Este post está completamente destituído de juízo de valor quanto o certo e o errado na história que vem a seguir.

Realmente não pude ver todos os filmes que estavam indicados ao Globo de Ouro deste ano e nunca tive nenhum tipo de vontade de discutir o embróglio entre críticos e cinéfilos sobre o verdadeiro mérito ou a falsa comoção do público no que se refere a Heath Ledger e suas conquistas de prêmios pela atuação do personagem Coringa no filme Batman – O Cavaleiro das Trevas [falsa comoção no sentido de criar um burburinho sobre um talento superestimado por conta de sua prematura e surpresa morte] . Mas, para todos que torciam contra,a favor, ou que nunca quiseram se manifestar, a bolinha d’ouro desse ano é dele. 

 

O Coringa ainda dá o que falar

O Coringa ainda dá o que falar

O que vale dizer [ou repetir] é que o ator australiano realmente criou um novo Coringa nas telas, apagando o esteriótipo caricato [e igualmente excelente] de Jack Nicholson e enchendo o maior inimigo do homem-morcego de tiques e filosofias. O cara-pintada que vimos no último filme [que se arrebentou de ganhar dinheiro com ajuda de uma forte campanha viral apoiada justamente na curiosidade de como seria o novo Coringa] transborda uma perturbação ue rendeu diversos elogios.

Mas eu não vi no cinema um louco-varrido-psicótico como taxaram em milhares de conversas que vi e ouvi. Heath Ledger criou calafrios justamente por expor um personagem extremamente humano, apontando pra sua cara e dizendo “olha o que vocês, em conjunto, são capazes de fazer. Olhem para mim e vejam a sí proprios”. Além disso, me impressionou a lucidez do “monstro” que tacou o puteiro geral em Gothan City. O principal vilão da trama era dotado de uma lucidez superior a de todos os outros personagens juntos.

O Coringa de O cavaleiro das Trevas sabia exatamente o que queria, sabia exatamente quais eram seus ideais e sabia como botar tudo de cabeça pra baixo. Era um anarcoqualquercoisa que tinha tudo traçado em sua mente…”perturbada”…enquanto víamos um Batman travando sua eterna luta filosófica e/ou espiritual e/ou ética de continuar [ou não] a defender Gothan, de contuar [ou não] vestindo o manto negro, de continuar [ou não] sendo taxado de herói ou vilão. O comissário Gordon se mostrou convicto de sua moralidade, mas exitava sempre em burlar ou não a lei burocrática para servir a ordem e tínhamos um promotor incorruptível que, quando entra pelo cano, vira um sociopata abiloldo assassino em série sem qualquer equilíbrio e dissernimento.

Ontem, na entrega do prêmio, o diretor Christopher Nolan recebeu troféu em nome do falecido ator, que foi aplaudido de pé por todos no recinto [claro que nunca saberei se tal ato aconteceu por sineridade ou para seguir as regras de etiqueta]. Abaixo, o vídeo do momento da entrega:

Obs: a mãe de Heath Ledger declarou à revista People que o Globo de Ouro póstumo ficará com a filha do ator, a pequena matilda, de três anos de idade.

 

A pequena Matilda

A pequena Matilda

Quem é o violento? (Parte III)

Dezembro 2, 2008

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

 

Ambos os filmes são obras primas do cinema e corretamente classificados de Cult. Já a sociedade como um todo sempre aponta o dedo para encontrar bodes expiatórios de suas falhas. O homem já possui a violência dentro de si e isso virá a tona independente de algo que ele veja ou não. Cinema e outras artes não são influenciadores de nada, mas sim apenas faísca que desperta o que se tem de mais profundo dentro de cada mente.

 clockwork_poster

Censurar, reclassificar, recriminar ou reclamar de violência em demasia em qualquer das artes (o que hoje em dia também inclui Internet, games e quadrinhos) é um tanto quanto prematuro e inválido, uma vez que esses meios não são dissipadores de violência, mas sim de informação que cada um deve assimilar de acordo com seus repertórios de vida e suas convicções.

 tt0137523_largecover

Mais interessante e engraçado seria, ao invés de censurar e criticar expressões artísticas que incomodam e provocam como acontece com os filmes citados, poderíamos censurar e criticar a nós mesmos, que fazemos questão de enxergar só o raso e não a subjetividade encantadora que essas obras carregam. Até porque, sem a reflexão em nossas vidas, sem as artes em nossas vidas, continuaremos a nos atacar e a nos violentar, mas um retrocesso começará a acontecer até que acabaremos num futuro não muito distante, saindo de grutas úmidas com clavas rudimentares nas mãos pra procurar animais pequenos e suculentos para saciar nossa fome e, além disso, continuaremos a esmagar crânios de nossos companheiros de caça para saciar nossa sede. A sede de violência gratuita e desmedida.

Quem é o violento? (Parte II)

Dezembro 2, 2008

O cinema já retratou diversas formas de violência em diversos estágios e de diversas maneiras, mas dois desses filmes chamam muita atenção pela polêmica criada e pelo título de Cult que receberam.

 clock01

Em 1971, o diretor Stanley Kubrick lançou seu filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), baseado no livro homônimo do escritor Anthony Burgess. O filme se tornou um clássico e hoje é peça fundamental na coleção de qualquer cinéfilo de plantão. Na época em que foi lançado, o filme foi tachado de absurdo e impróprio, pois continha cenas muito fortes de violência e erotismo.

No final do século passado, outro filme ganhou notoriedade pela maneira com que mostrava a violência, exaltando-a e criando discussões. Clube da Luta (Fight Club – 1999) foi dirigido por David Fincher e também baseado em livro homônimo do escritor Chuck Palahniuk. Este filme, ao ser lançado, chegou a receber o apelido carinhoso de “Laranja Mecânica dos anos 90”.

 clube-da-luta

 

Tivemos na década de 70 uma sociedade hipócrita e cega. Na década de 80, 90 e nos dias de hoje, no tão sonhado novo milênio, temos a mesma sociedade hipócrita e cega. Uma sociedade extremamente violenta que não mede esforços pra conseguir o que quer, atacando outros física e moralmente. Uma sociedade enganada por seus governantes, condicionada por seus anunciantes e cercada por uma cultura de consumo, medo e solidão. Kubrick avisou a todos sobre isso em seu filme, Fincher reafirmou o aviso com outro filme, e a maioria das pessoas não deu atenção. Apenas se chocaram com as “barbáries” cometidas em algumas cenas de violência gratuita e desmedida, feitas justamente para propor uma auto-avaliação do ser humano e seu papel na tal sociedade.

O problema maior é que as pessoas não estavam preparadas na época em que Laranja Mecânica foi lançado, não estavam preparadas quando Clube da Luta foi lançado e não estão preparados hoje para ver seus próprios defeitos escancarados na tela grande do cinema e, ao vê-los, tentam achar um culpado. O próprio cinema. A adaptação de Kubrick é visceral e brilhante. O diretor provoca o expectador com desorientações ao cometer erros de continuidade propositais, trocando pratos de posição durante a seqüência de cenas e também o nível de vinho nas garrafas mudam em diversas tomadas. Quebra tabus ao exibir nudez, símbolos eróticos e violência escancarada o tempo todo e denuncia que a verdadeira violência parte de um governo totalitário e vil.

No documentário Tiros em Columbine (Bowling for Columbine – 2002), o diretor Michael Moore entrevista o cantor Marylin Manson, que teve suas músicas acusadas de influenciar os meninos que provocaram o massacre no colégio dos Estados Unidos. Uma frase que chama muito a atenção é a seguinte: “Quem é mais influente: o presidente ou Marylin Manson?” (No mesmo dia do massacre de Columbine, os EUA lançaram mais bombas em Kovoso do que durante a guerra toda).

No filme Laranja mecânica, o governo se mostra mais violento do que Alex e seus druguies, desenvolvendo um programa de recuperação de presos, onde a lavagem cerebral simplesmente deleta a liberdade de escolha de uma pessoa. O mesmo governo que contrata delinqüentes para fazer parte de uma policia corrupta e que intimida. A ironia também é peça fundamental da película, pois Alex é um garoto tomado de extrema violência, mas sua música preferida é a 9º sinfonia de Beethoven, conhecida como a sinfonia da “paz e da união entre os homens”.

clockwork-orange-0

 

 

Clube da luta causou furor ao exaltar a violência, justificar terrorismo urbano e despejar um conteúdo denso de liberdade das coisas materiais através do abandono puro e simples de qualquer comodidade: “As coisas que você possui acabam te possuindo. Você só é realmente livre após perder tudo. Pois ai não terá o que perder, e, enfim, encontrar-se-á livre”. Esta é uma das frases usadas pelo intrigante Tyler Durden (Brad Pitt), alter ego do narrador da história interpretado por Edward Norton. Esta segunda personagem não tem o nome revelado no filme e vive uma vida vazia, regada a consumo excessivo e solidão constante. Nada mais o agrada e, ao “conhecer” o Sr. Durden em uma de suas viagens como inspetor de sinistros de uma grande companhia de seguros, começa a tomar novos ares e novos rumos.

No Brasil temos ainda um adendo na repercussão do filme, quando um estudante entrou em uma sala do Shopping Morumbi em São Paulo onde o filme estava sendo exibido e, com uma metralhadora, atirou a esmo ferindo várias pessoas. Esse episódio foi tema de debates e mais debates na mídia por semanas, criando uma atmosfera ainda mais pesada para o filme.

_fight-club1

Fincher foi corajoso e ousado ao adaptar essa obra para o cinema, com diálogos ácidos e um ritmo frenético, iniciado por imagens velozes do interior do sistema nervoso, culminando na saída do corpo e identificando a personagem de Edward Norton. Imagens do Tyler Durden são inseridas em alguns frames propositalmente, desnorteando o expectador que não tem certeza se viu ou não algo estranho nas cenas iniciais (fato que depois é explicado, quando o narrador nos conta as diversas profissões exercidas por Durden). O filme denuncia todos os distúrbios que a publicidade, a comunicação em massa e a cultura de ostentação pode nos causar. A violência que essas armas do capitalismo exerce sobre nossas cabeças é muito mais aterrorizante, traumatizante e feia do que todo o sangue que Tyler derruba no dono do porão onde o clube tem sede.

A ironia maior do filme fica por conta do frenesi causado pela personagem de Brad Pitt que fazia o caminho inverso do chamado “natural”. Quanto mais o público o conhecia, mais o admirava e mais heróico se tornavam seus atos e modos de vida. Enquanto a publicidade dita que as pessoas têm que adquirir status com as coisas que consomem, Tyler adquiria admiradores e fama afundando-se cada vez mais, seguindo o caminho inverso e mostrando ao narrador que tudo deve ser abandonado para que se consiga a tal “liberdade”. Tyler é uma celebridade às avessas.

 

 

(Continua no próximo post)

 

Quem é o violento?

Dezembro 2, 2008

 

INTRODUÇÃO:

 

vi.o.lên.cia   sf   (lat violentia)
1 Qualidade de violento. 2 Qualidade do que atua com força ou grande impulso; força, ímpeto, impetuosidade. 3 Ação violenta. 4 Opressão, tirania. 5 Intensidade. 6 Veemência. 7 Irascibilidade. 8 Qualquer força empregada contra a vontade, liberdade ou resistência de pessoa ou coisa. 9 Dir Constrangimento, físico ou moral, exercido sobre alguma pessoa para obrigá-la a submeter-se à vontade de outrem; coação. Antôn (acepção 7): brandura, doçura.

 

 caveman3

Nos primórdios da humanidade, quando tudo eram trevas e dúvidas, dois chamados “homens das cavernas” tiveram a brava atitude de sair de seus refúgios escuros para se alimentar. Portavam clavas de madeira bem rudimentares para se defender no admirável mundo que lhes era tão novo.

Caminharam juntos por algumas horas, encontraram frutas pelo caminho, mas que não chegaram a sanar-lhes a fome de vários dias entocados na tal gruta. Sentaram-se por alguns instantes para descansar as pernas pouco resistentes e ouviram barulhos vindo de algum local não muito distante. Correram na direção dos sons e avistaram um animal pequeno, mas que parecia ser muito suculento. Pularam pra cima dele com sagacidade e o abateram sem nem usar suas armas.

Ambos se olharam com entusiasmo e orgulho mútuo, sorrindo e soltando grunhidos exaltados. Nesse momento, um dos homens tirou o sorriso da cara e encarou seu companheiro de caça que ainda fitava com olhos brilhantes sua vitória contra o animalzinho e contra a fome. Sem pensar duas vezes, pegou sua clava do chão e afundou parte do crânio do parceiro num golpe forte e certeiro. A fulminante pancada fez com que o pobre homem caísse já de olhos fechados e sangue manchando sua face, corpo e tingindo o chão de terra.

 history_of_violence

Nascia ali o primeiro ato de violência na sociedade.

Daí pra frente tivemos Julio César, Jesus Cristo, Templários, índio Pataxó até os dias de hoje. “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe” é a frase mais conhecida do iluminista e precursor do romantismo Jean-Jacques Rousseau e sintetiza bem todo o assunto que vamos tratar.

(Continua no post de amanhã)


Do lado de lá

Novembro 11, 2008

Estava brincando esses dias de fuçar nos blogs do Estadão e acabei me entretendo com posts do Felipe Machado sobre alguns top 10 que ele já fez. Eis que me veio na mente que o exercício de criar listas é muito gostoso e saudável, mas que muitas vezes caem nos clichês, afinal, estão sempre os top of mind dos respectívos tópicos (claro, isso foi uma divagação minha e não uma crítica ao Felipe ou a qualquer lista já feita). 

Decidi então fazer uma pequena relação de caras que eu queria ser, mas fugindo um pouco dos pequenos notáveis da vez.

Escolhi três categorias: música, cinema e literatura (a tríade que permeia minha vida). Sem Marlon Brando, Johhny Depp, Beatles, Saramago ou Garcia Márquez.

 

 

  • Cinema:


bill-murray-01

Eu já adorava Bill Murray no filme Nosso Querido Bob e ele sempre será o eterno Caça-fantasma. Mas ao envelhecer, Murray adquiriu um ar melancólico e cínico que muito me agrada. Desde que voltou ao estrelato no ótimo Encontros e Desencontros (a melhor cena, na minha opinião, é a quem ele e a Scartlett Johanson estão na cama e ele delicadamente coloca a mão no pezinho dela), Bill Murray ataca sempre no papel de antisocial ácido que acaba até transparecendo como sua própria personalidade em entrevistas. Sua atuação é deliciosa de se ver no filme A Cidade Perdida, ao mostrar um escritor derrotado, mas sempre com as frases mais (im)pertinentes. Em Flores Partidas, um solteirão alheio aos sentimentos do mundo comprova que Bill parece sempre interpretar ele mesmo. Humor sem mostrar os dentes (e isso também não quer dizer que um antisocial não pode ser uma pessoa sociável e interessante).

(Segue o trailer de Flores Partidas) 

 

 

  • Literatura:

john-fante

Filho maior da grande recessão americana, John  Fante despontou no núclo do furacão que foi a depressão de 29. Seu alterego é Arturo Bandini, um escritor completamente perdedor e altamente ególatra que emana os pensamentos mais sórdidos e malucos, mostrando toda a plenitude de uma cabeça solitária (no caso, a de um escritor). Los Angeles é o cenário para dois grandes romances que li (Pergunte ao pó e Os Caminhos de Los Angeles) e Arturo Bandini é, na verdade, todos nós – humano, egoísta, sonhador e esperançoso. Arturo é Fante, e Fante é, dos perdedores, o melhor.
(segue um trailer do filme que foi adaptado do livro Pergunte ao pó) 

 

 

  • Música:

nick-cave-01

Fama de obscuro, Nick Cave acaba tento uma recepção não muito calorosa por parte de quem o escuta pela primeira vez. Mas a questão é que ele é muito, muito bom.

Sim, sua voz deixa soturna até a canção Parabéns pra você, mas suas canções são, muitas e muitas vezes, bem divertidas e suas composições, efusivamente criativas. Nick Cave é um contador de histórias de primeira, envolvendo questões que alguns acham difícies, como morte, religião e amores não convencionais.

Um dos álbuns mais interessantes nesse quesito é o Murder Ballads, permeado de canções que narram assassinatos passionais. Não se trata de um compilado de músicas pesadas e sem sentido, mas sim, de um emaranhado de poesia e histórias profundas, com participações de PJ Harvey (sua mulher na época) e Kylie Minogue (quem diria, hein).

NIck Cave é posudo, persistente e talentoso. Nick Cave é humano também. Um humano curioso e apreciador dos papos que incomodam.
(O clipe abaixo é da canção More News From Nowhere, de seu último álbum,  Dig, Lazarus, Dig!!!)

 

Três facetas, uma mesma cara.
E você, quem quer ser?

 

[Este post é um meme para Pedro Jansen, Rafael Campos e Ian Black]