O cinema já retratou diversas formas de violência em diversos estágios e de diversas maneiras, mas dois desses filmes chamam muita atenção pela polêmica criada e pelo título de Cult que receberam.

Em 1971, o diretor Stanley Kubrick lançou seu filme Laranja Mecânica (A Clockwork Orange), baseado no livro homônimo do escritor Anthony Burgess. O filme se tornou um clássico e hoje é peça fundamental na coleção de qualquer cinéfilo de plantão. Na época em que foi lançado, o filme foi tachado de absurdo e impróprio, pois continha cenas muito fortes de violência e erotismo.
No final do século passado, outro filme ganhou notoriedade pela maneira com que mostrava a violência, exaltando-a e criando discussões. Clube da Luta (Fight Club – 1999) foi dirigido por David Fincher e também baseado em livro homônimo do escritor Chuck Palahniuk. Este filme, ao ser lançado, chegou a receber o apelido carinhoso de “Laranja Mecânica dos anos 90”.

Tivemos na década de 70 uma sociedade hipócrita e cega. Na década de 80, 90 e nos dias de hoje, no tão sonhado novo milênio, temos a mesma sociedade hipócrita e cega. Uma sociedade extremamente violenta que não mede esforços pra conseguir o que quer, atacando outros física e moralmente. Uma sociedade enganada por seus governantes, condicionada por seus anunciantes e cercada por uma cultura de consumo, medo e solidão. Kubrick avisou a todos sobre isso em seu filme, Fincher reafirmou o aviso com outro filme, e a maioria das pessoas não deu atenção. Apenas se chocaram com as “barbáries” cometidas em algumas cenas de violência gratuita e desmedida, feitas justamente para propor uma auto-avaliação do ser humano e seu papel na tal sociedade.
O problema maior é que as pessoas não estavam preparadas na época em que Laranja Mecânica foi lançado, não estavam preparadas quando Clube da Luta foi lançado e não estão preparados hoje para ver seus próprios defeitos escancarados na tela grande do cinema e, ao vê-los, tentam achar um culpado. O próprio cinema. A adaptação de Kubrick é visceral e brilhante. O diretor provoca o expectador com desorientações ao cometer erros de continuidade propositais, trocando pratos de posição durante a seqüência de cenas e também o nível de vinho nas garrafas mudam em diversas tomadas. Quebra tabus ao exibir nudez, símbolos eróticos e violência escancarada o tempo todo e denuncia que a verdadeira violência parte de um governo totalitário e vil.
No documentário Tiros em Columbine (Bowling for Columbine – 2002), o diretor Michael Moore entrevista o cantor Marylin Manson, que teve suas músicas acusadas de influenciar os meninos que provocaram o massacre no colégio dos Estados Unidos. Uma frase que chama muito a atenção é a seguinte: “Quem é mais influente: o presidente ou Marylin Manson?” (No mesmo dia do massacre de Columbine, os EUA lançaram mais bombas em Kovoso do que durante a guerra toda).
No filme Laranja mecânica, o governo se mostra mais violento do que Alex e seus druguies, desenvolvendo um programa de recuperação de presos, onde a lavagem cerebral simplesmente deleta a liberdade de escolha de uma pessoa. O mesmo governo que contrata delinqüentes para fazer parte de uma policia corrupta e que intimida. A ironia também é peça fundamental da película, pois Alex é um garoto tomado de extrema violência, mas sua música preferida é a 9º sinfonia de Beethoven, conhecida como a sinfonia da “paz e da união entre os homens”.

Clube da luta causou furor ao exaltar a violência, justificar terrorismo urbano e despejar um conteúdo denso de liberdade das coisas materiais através do abandono puro e simples de qualquer comodidade: “As coisas que você possui acabam te possuindo. Você só é realmente livre após perder tudo. Pois ai não terá o que perder, e, enfim, encontrar-se-á livre”. Esta é uma das frases usadas pelo intrigante Tyler Durden (Brad Pitt), alter ego do narrador da história interpretado por Edward Norton. Esta segunda personagem não tem o nome revelado no filme e vive uma vida vazia, regada a consumo excessivo e solidão constante. Nada mais o agrada e, ao “conhecer” o Sr. Durden em uma de suas viagens como inspetor de sinistros de uma grande companhia de seguros, começa a tomar novos ares e novos rumos.
No Brasil temos ainda um adendo na repercussão do filme, quando um estudante entrou em uma sala do Shopping Morumbi em São Paulo onde o filme estava sendo exibido e, com uma metralhadora, atirou a esmo ferindo várias pessoas. Esse episódio foi tema de debates e mais debates na mídia por semanas, criando uma atmosfera ainda mais pesada para o filme.

Fincher foi corajoso e ousado ao adaptar essa obra para o cinema, com diálogos ácidos e um ritmo frenético, iniciado por imagens velozes do interior do sistema nervoso, culminando na saída do corpo e identificando a personagem de Edward Norton. Imagens do Tyler Durden são inseridas em alguns frames propositalmente, desnorteando o expectador que não tem certeza se viu ou não algo estranho nas cenas iniciais (fato que depois é explicado, quando o narrador nos conta as diversas profissões exercidas por Durden). O filme denuncia todos os distúrbios que a publicidade, a comunicação em massa e a cultura de ostentação pode nos causar. A violência que essas armas do capitalismo exerce sobre nossas cabeças é muito mais aterrorizante, traumatizante e feia do que todo o sangue que Tyler derruba no dono do porão onde o clube tem sede.
A ironia maior do filme fica por conta do frenesi causado pela personagem de Brad Pitt que fazia o caminho inverso do chamado “natural”. Quanto mais o público o conhecia, mais o admirava e mais heróico se tornavam seus atos e modos de vida. Enquanto a publicidade dita que as pessoas têm que adquirir status com as coisas que consomem, Tyler adquiria admiradores e fama afundando-se cada vez mais, seguindo o caminho inverso e mostrando ao narrador que tudo deve ser abandonado para que se consiga a tal “liberdade”. Tyler é uma celebridade às avessas.
(Continua no próximo post)