Você pode até não acreditar, mas o relato documentado a seguir é uma verdade plena, toda inventada em minha cabeça. Pois tudo aquilo que conhecemos são coisas que escondem todas as outras coisas. E tudo aquilo que não conhecemos são coisas esperando descobrimento para esconder outras coisas ou serem escondidas por elas. Poderia contar uma coisa, mas prefiro contar outra.
Porque a experiência que tive, provocada pela sequência de eventos que se desencadearam diante dos meus olhos, por baixo dos meus pés, montados em minhas costas e dentro da minha boca, ouvidos e nariz, seria tudo, menos contada de forma realista.
Comecemos pela dúvida: qual caminho seguir? O incerto ou o inverso!? – de tantas bifurcações existentes nas entradas do coração dessa terra, pegamos justamente aquela que não estava lá, mas que foi colocada lá.
E a noite foi cúmplice do moleque travesso. Com sua bocarra escura, engolia goela abaixo toda a luz do farol do carro – única iluminação disponível – nas subidas e descidas de terra seca e batida. Essa noite que, orgulhosa em sua tarefa, não nos deixava ver nem o relevo acentuado, muito menos as bromélias tão psicodélicas que alternam de cores durante o dia, passando do rosa com amarelo para laranja e vermelho, indo dormir vestidas de azul e roxo. Perdemos a noção, ganhamos algumas outras bifurcações (essas já sem novas indicações), ficamos com duas horas a mais na contagem total da jornada e quase nos vamos sem a esperança. Só mesmo depois de se divertir o suficiente é que o danado nos deu a primeira pista.
Entre pontezinhas de madeira, cercas dominadas pela vegetação, corredores enveredados e cobertos por um cascalho chato de atravessar, avistamos uma luz que aparentava o fim. Mas era o começo. Literalmente.
A tal iluminação era do pequeno comercio que acumulava vida no começo da estrada de terra que iniciou nossas preocupações. O espaço voltara, mas o tempo não. O frio se agarrava com toda a firmeza nos vidros do carro e o som era produzido apenas por nós. Mas como fazer o começo voltar a ser começo e achar um novo fim, mais atrativo e novo?
Com a velocidade bem reduzida, fomos traçando de novo o caminho que nos colocou frente a um cavaleiro trotando com seu garanhão e vestindo uma camisa negra cintilante e chapéu velho. Disse, ao pedirmos informação, que havia a frente um único caminho que daria exatamente na cidade que estávamos procurando. Sua tranqüilidade era estranhamente contagiante e sua firmeza na informação era, de repente, uma sinceridade sem igual. Mesmo tendo iniciado o caminho errado justamente naquele único trecho de terra, seguimos em frente pela segunda vez, seguindo o conselho daquele senhor contraditório, de sela cheia de brilhantes e botas surradas. Afinal, o caminho nos levou ao local certo, sem maiores percalços.

Justo ele...
Logo de cara, rumo ao início das entranhas do nosso país, demos de cara com o Saci Pererê, que pregou a peça de nos fazer perder pelo ‘cerrado’ mineiro e, depois de algumas boas risadas, se fez homem montado e nos botou no rumo certo.
E isso era só o início…