Quando eu era moleque, eu era muito porra-louca. Sabe como é, né…
…família italiana, todas as energias do mundo acumuladas… eu falava muito, falava alto, falava tudo o que me vinha à mente e falava pra quem quisesse ouvir. Era estouradinho, briguei bastante (já senti o êxtase de um soco certeiro e a frustração do sopapo bem tomado nas fuças).
Adorava passar as férias e muitos finais de semana na casa da minha avó. A molecada era gente boa e a gente passava os dias exercitando a infância, ou seja, brincando das sete da manha às 10 da noite, jogando bola, correndo feito doido, trocando idéias, insultos e desafios. Uma beleza.
Na rua da minha avó, além disso tudo, tinha também o Cabecinha.
Cabecinha, cujo nome eu lá nem lembro mais, era um incrível paradoxo de oito ou nove anos. Sua cabeça era enorme (como já se era previsível de deduzir), tinha os olhos grandes e curiosos, sorriso constante e pequeno, diminuído pelas bochechas gigantes, redondas e rosadas. Tinha também o queixinho partido e braços gordinhos (daqueles que fazem até furinhos nos cotovelos). E por trás dessa massa fofa de cabelo “tigelinha” existia uma força súbita sempre aparente. Traduzindo: o moleque era uma peste ligada no 780! E claro que a gente aproveitava a encapetação do fedelho pra dar muitas risadas com as mais diversas torrações de saco que o tiravam do sério. Em bom português, a gente causava pra carai.
Num dia qualquer, como qualquer outro, lá veio o Cabecinha descendo a rua em nossa direção (o sorriso dele sempre foi seu melhor. Dava pra sentir de longe a maldade inocente daquele sorriso) enquanto eu conversava com alguém (ou alguéns) sentado no muro do terreninho. Eis que eu decido recepcionar o garoto com todo aquele sarcasmo que sempre me foi parte integrante:
E aê, Cabecinha! – eu disse com certa malícia e empolgação. E o Cabecinha, que já vinha encarando a molecada com aquela serenidade desvairada, foi chegando perto e armando a surpresa. Foi deixando o sorriso maroto de lado e enchendo os olhos de intriga. Com a feição taciturna, apontou o dedinho gordo em minha direção e disparou: “Diabo…cê é o diabo. Diabo, cê é o diabo…cê é o diabo…diabo diabo diabo…CÊ É O DIABO, O DIABO, DIABO!!!”
Na mesma fração de segundo em que nossos olhos arregalaram de forma única, o Cabecinha deu de costas em velocidade e correu pra dentro de casa (que ficava quase de frente pro terreninho). Naquele momento, o Cabecinha levou consigo todo o nosso ar. Depois a gente ficou sabendo que tudo não passava de uma experiência recente (a família do Cabecinha era evangélica e ele só repetida o que ouvira no culto), mas nunca mais o cabecinha fora subestimado na rua da minha avó.
O Silvio Santos subestimou a pequena Maísa que, após ter chorado aos berros num domingo qualquer de meu deus, repetiu a façanha de chorar no ar no domingo seguinte. E o resultado todo mundo sabe: cassaram a licença de trabalho da pequena e tiraram do ‘Patrão’ a galinha, os ovos de ouro e o SBT continua na derrocada, só chegando a segundo lugar no Ibope nas madrugadas e quando repisam o Chaves. Perturbou a menina (perturbada), só toma pau da emissora do bispo e prova, a cada domingo, que pegou sua noção com as mãos, amassou fazendo uma bolinha, e jogou num canto qualquer em Miami. “Má oê! Quem quer dinheiro!?”
[e depois,quando dizem que a Susan Boyle é a Maísa no "eu sou você amanhã, dizem que é maldade. Repara só]








